Please reload

Posts Recentes

Projeto Laguna Cultural promove evento 'Piano Bar e Sarau de Poesia' em parceria com Chiquinho Vaz e Tatiana Machado! Confira como foi a ediçã...

August 28, 2018

1/3
Please reload

Posts Em Destaque
Siga
Procurar por tags
Please reload

Arquivo
  • Facebook Basic Square
  • Twitter Basic Square
  • Google+ Basic Square

Da África para os Estados Unidos e o mundo: blues, uma viagem musical - Capítulo 01 - O blues: sua história e histórias

October 9, 2017

 

Da “pré-história” aos dias de hoje

 

 A viagem pela história do Blues começa muito antes deste gênero ser concebido. Devemos voltar até a gênese dos Estados Unidos da América, entender sua relação com a Inglaterra, e, por fim, já com o país independente, entender a questão racial, que tão forte marcou a história norte-americana.

 

Flávio Campos e Renan Garcia Miranda mencionam no capítulo O nascimento dos Estados Unidos do livro A escrita da história:

 

"A trajetória da colonização dos Estados Unidos, dita de povoamento, liga-se à história política e religiosa da Inglaterra no século XVII. Agitações civis e perseguições políticas nas revoluções Puritana (1640) e Gloriosa (1689) ajudaram a formar a corrente de emigração para a América do Norte. Perseguidos, puritanos, católicos, cavaleiros, aristocratas e realistas buscaram na América liberdade religiosa e/ou política" (CAMPOS; MIRANDA, 2005, p. 289).

 

As principais colônias inglesas estavam na parte norte do território americano, em colônias como Nova York e Carolina do Norte. As colônias do Norte, com predominância dos puritanos ingleses, desenvolviam uma forma de economia diferente das do Sul. No Norte, predominava o comércio com outras regiões, e os produtos da terra eram utilizados em usinas e fábricas de papel ou serrarias. Já no Sul, região menos povoada, com poucas cidades, raros portos e com predominância dos fazendeiros ingleses, havia uma forte tradição do cultivo do próprio solo. Esta região dependia da exportação de seus produtos, sobretudo do algodão, do tabaco e do arroz. Daí vem a importância do trabalho escravo no sul dos Estados Unidos, tanto que os escravos eram numericamente superiores aos seus senhores.

 

Por influência dos ingleses que colonizaram os Estados Unidos da América, a música norte-americana terá uma forte tendência religiosa. Cabe aqui lembrar que, também por influência dos puritanos ingleses, os Estados Unidos têm uma forte tradição religiosa, sobretudo protestante. Sendo assim, com a chegada dos negros africanos, houve uma fusão cultural e religiosa entre a cultura norte-americana e africana. Isso explica o fato de as worksongs e os negro spirituals estarem enraizados na cultura norte-americana e não a música erudita.

 

Leandro Karnal, em seu livro História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI, diz

 

"O primeiro navio trazendo escravos chegou à Virgínia no ano de 1619. Aliás, estima-se que, até 1860, aproximadamente 400 mil africanos (vindos principalmente da parte ocidental do continente) chegaram ao país a fim de trabalhar nas fazendas sulistas de tabaco e algodão" (KARNAL, 2007, p. 65).

 

O quadro que encontramos até aqui é o de um país dividido em duas grandes regiões, opostas econômica, militar e culturalmente. Essa oposição vai levar a uma sangrenta Guerra civil, com vitória para as colônias do Norte.

 

 

É a partir deste período que a música afro-americana vai começar a se desenvolver. Os negros africanos que trabalhavam como escravos no Sul do país serão de suma importância neste processo, bem como a região do Delta do rio Yazoo, região onde se deu a gênese do Blues.

 

Roberto Muggiati diz em seu livro Blues: da lama à fama:

 

"Se o Blues teve um berço, é o Delta. Ao ouvir falar do Delta, a maioria pensa no Delta do Mississipi, nas vizinhanças de Nova Orleans. Errado: este foi o berço do jazz. O Delta a que os bluesmen se referem, como uma espécie de país mítico, é o delta lamacento do rio Yazoo, que junta suas águas às do Mississipi nas proximidades de Vicksburg, região de inundações bíblicas onde camadas de lama vão se depositando a cada primavera". (MUGGIATI, 1995, p.19).

 

Os escravos utilizavam as chamadas worksongs durante o trabalho com o fim de amenizar o sofrimento causado pela longa e dolorosa jornada de trabalho e como forma de comunicação entre eles - em um idioma que os seus senhores não entendiam. Vale salientar que, por dois motivos, as worksongs eram vocais. Primeiro porque eram canções entoadas durante o trabalho, segundo, mesmo não estando no momento do trabalho, os senhores não permitiam que os negros utilizassem seus instrumentos mais tradicionais – os de percussão e os de sopro. Era comum as worksongs tratarem de temas como a liberdade, a esperança, o céu, a vida eterna, etc. Como na música “Hoe Emma Hoe”:

 

Hoe Emma Hoe, you turn around dig a hole in the ground, Hoe Emma Hoe.

Emma, you from the country.

Emma help me to pull these weeds.

Emma work harder than two grown men.[1]

 

Ou, ainda, em “Trouble so hard”

 

O Lord, trouble so hard. Yes, indeed, my trouble is hard.

O Lord, trouble so hard.Don’t nobody know my troubles but God.

Yes, indeed, my trouble’s so hard. O Lord, trouble so hard.

Wait and let me tell you what the sister will do:‘Fo’ your face, she have a love for you,

'Hind your back, scandalize your name,Jest the same you have to bear the blame.[2]

 

Também nas worksongs, os negros enganavam seus senhores quando entoavam letras com um sentido diferente do que se ouvia. Sendo assim, em uma worksong que dizia “minha mulher não cuida de mim”, essa “mulher”, na verdade, era o patrão e, desta forma, cada grupo de negros podia passar para outro, através da música, a maneira como eles estavam sendo tratados. As worksongs também têm sua importância porque foi através delas que se desenvolveu o canto de pergunta e resposta, forma em que um solista “pergunta” e o coro “responde”. Esta forma será tradicional na música norte-americana, sobretudo nos negro spirituals (música vocal afro-americana para coro e solista).

 

Até este momento, o Blues, propriamente dito, ainda não havia nascido. Havia, sim, a manifestação musical dos escravos negros durante sua jornada de trabalho, que a usavam, também, para descrever a vida dolorosa que levavam.

 

Segundo Gilbert Chase, em seu livro Do Salmo ao Jazz: a música dos Estados Unidos,

 

“A origem dos blues é obscura. Pode-se conjeturar que eles se tenham desenvolvido concomitantemente com o resto da canção folclórica afro-americana, no Sul dos Estados Unidos” (CHASE,1957, p. 413).

 

Muggiati (1995) também destaca que: “há quem argumente que o blues veio da música religiosa e dos spirituals, canções que os negros criaram a partir das histórias da Bíblia” (MUGGIATI, 1995, p. 9).

 

O que se tem em consenso é que o Blues começou a se desenvolver com o término da Guerra Civil americana, e, que, em sua essência, serviam para descrever o estado de espírito da população afro-americana, geralmente um estado de sofrimento, melancolia e tristeza. Daí surgiu a expressão feeling blue (sentir-se triste, abatido). Já em 1550 a expressão to look blue, no sentido de estar sofrendo de medo, ansiedade, tristeza, já era corrente. Os escravos encontravam no Blues um alívio para suas tormentas e sofrimentos. Com instrumentos improvisados- como, por exemplo, um arame preso na porta que era tocado com uma garrafa de vidro para imitar a voz humana, ou uma espécie de guitarra acústica, feita com uma abóbora seca presa em um pedaço de madeira- já que não tinham acesso e nem dinheiro para comprar instrumentos tradicionais- os negros tinham na música um momento de alívio e de consolo. A voz era o principal instrumento dos negros. Seus senhores não autorizavam o uso dos instrumentos tradicionais porque temiam que eles pudessem ser usados para uma rebelião. Com a fé e a música, eles encontraram uma maneira de amenizar suas dores. Não obstante, muitas canções negras falavam na esperança de dias melhores, na liberdade. Neste sentido, aparece a figura do “trem” e do “rio”, onde os negros acreditavam que “pegar um trem” ou “atravessar o rio” os levaria de volta ao seu país, às suas famílias.

 

De acordo com Muggiati (1995),

 

“Trens e trilhos correm no sangue pelas veias do blues. A ferrovia não é um mero meio de transporte- é quase um veículo mágico que leva o negro a transcender a sua condição (MUGGIATI, 1995, p. 29).

 

Em The Blues: Feel like going home, com direção de Martin Scorsese, Corey Harris (21 de fevereiro de 1969-), importante bluesman da geração atual, realiza uma viagem pelo sul dos Estados Unidos, e posteriormente, pela República do Mali, país da África Ocidental, com a finalidade de descobrir as origens do Blues. Um outro americano, chamado Alan Lomax (15 de janeiro de 1915 - 19 de maio de 2002), musicólogo, pesquisador e arquivista estadunidense da música folclórica norte-americana,a partir de 1930,primeiro em companhia de seu pai, John Lomax, e, posteriormente, sozinho,começou a realizar importante viagem pelo Sul dos Estados Unidos registrando as manifestações musicais daquela região, no que seria chamado de Arquivo de música folclórica americana. Sendo assim, Corey Harris encontra com alguns bluesman ainda vivos na época - o documentário foi feito no ano de 2003 -como Taj Mahal, Sam Carr, Otha Turner, etc. Tocando, conversando, ouvindo suas histórias e estando em locais onde anos atrás o Blues começou a ser gerado, Corey nos deixa importantes informações a respeito de sua história. Para ele, o Delta do Mississipi é a região americana onde se deu a origem do gênero. Mas, também, Harris aponta a República do Mali, no Oeste da África, como o país que mais enviou escravos para o sul dos Estados Unidos - foi a partir das pesquisas de Alan Lomax que, primeiramente, o Blues foi remontado às origens africanas.

 

Seguindo viagem então para o Mali, Corey Harris conversa com alguns artistas locais, e, assim, tem a confirmação para alguns de seus questionamentos. Em conversa com Corey, Toumani Diabate, músico local, diz

 

"Meu pai me contou, e ele, por sua vez, ouviu do pai dele, que as pessoas vinham à África para capturar escravos em Goree, no Senegal, e levá-los para trabalhar nas plantações. Você pode capturar as pessoas, pode tirar suas roupas, pode tirar seus sapatos, pode tirar seu nome e até dar outro nome. A única coisa que não se pode tirar é a sua cultura".    

 

Já Habib Koité, outro entrevistado, diz

 

"As semelhanças entre o Blues e a música de Mali estão no sentimento de melancolia e no modo musical, na escala - muitas músicas de Mali usam a escala pentatônica, assim como o Blues. A população africana que foi para os Estados Unidos foi separada, e não podia se comunicar pela linguagem, para tramar uma revolução. Acho que as pessoas tentaram se confortar através da música".

 

Otha Turner, importante bluesman, sobretudo na drum music (música de tambor), também em The Blues: Feel like going home, relata a vida dura que levava,

 

"Eu trabalhava em três propriedades todo dia. Meu pagamento no sábado era de oito dólares. Estou vivendo, colhi algodão do outro lado da ponte para L.B.Buford, ganhando de 12 a 15 centavos por fardo, e vivia assim”. (SCORSESE, apud Otha Turner).

 

Já B.B.King, no documentário The Blues: The Road to Memphis diz,

 

“Acho que, trabalhando no arado, eu andava uns 8 km por hora, trabalhava 12 horas por dia, fazia uns 100 km por dia. Seis dias por semana. Fiquei pensando, 16 anos fazendo isso, praticamente dei a volta ao mundo seguindo uma mula". (SCORSESE, 2006, 8´42´´)

 

Não se pode negar a importância que a questão escravocrata tem na história do Blues. Por causa dela, muitos negros africanos foram retirados de sua pátria, vendidos ou trocados e levados para trabalharem como escravos no sul dos Estados Unidos. Neste cenário de humilhação e exploração, através da cultura que trouxeram de sua terra natal, somada com a de seus senhores, os negros criaram as worksongs, os Negro spirituals, o Holler (tido como um tipo solo de worksong, caracterizado pelo grito), e, tudo isso, originaria o Blues.

 

No capítulo 'Blues' do livro The New Grove Gospel, Blues e Jazz, Paul Oliver cita,

 

"Os Blues têm andado por aí por séculos e séculos, e os blues foram escritos anos e séculos atrás - eles estiveram sempre aqui” (OLIVER, 1997, p. 44).

 

Oliver ainda diz:

 

“Mas não resta nenhuma prova para confirmar que o blues tenha existido antes da Guerra Civil durante a década de 1860, ou, até mesmo, na segunda metade do século 19” (OLIVER, 1997, p. 44).

 

O que se percebe é que não há exatidão sobre a origem do Blues. Por exemplo, para alguns, a terra do Blues é o Delta do Mississipi, para outros é o Delta do rio Yazoo.

 

O que se tem em consenso é que o primeiro Blues foi publicado por volta de 1912 por W.C.Handy com o título de Memphis Blues. Handy, que nasceu em Florence (Alabama), em 16 de novembro de 1873, sendo filho de um pregador metodista, se autodenominava o pai do Blues e compôs Memphis Blues para uma campanha eleitoral do prefeito Edward H.”Boss” Crump. Sendo assim, Memphis Blues passou para a história como o primeiro de todos os Blues (uma ressalva é que, como o Blues é música aprendida auricularmente, provavelmente por volta de 1912 outros Blues já haviam sido compostos). O que se atribui a Handy é que ele foi o primeiro a escrever o Blues em partitura. Há uma lenda na história do Blues que diz que Handy ouviu o Blues a primeira vez quando viajava clandestinamente em um vagão de trem. Muggiati (1995) cita esta lenda narrada por Handy:

 

"Uma noite em Tutwiler, quando eu lutava contra o sono na estação à espera de um trem com nove horas de atraso, a vida subitamente me agarrou pelo ombro e me acordou com uma sacudidela. Um negro esguio e desajeitado tinha começado a dedilhar um violão ao meu lado enquanto eu dormia. Suas roupas eram trapos, os dedos dos pés saíam pelos buracos dos sapatos. Seu rosto continha algo de tristeza milenar. Ao tocar, ele apertava as cordas do violão com uma faca da maneira popularizada pelos guitarristas havaianos, que usavam barras de aço. O efeito foi inesquecível" (apud MUGGIATI, 1995, p. 24).

 

Sobre Memphis Blues, Chase (1957) faz as seguintes considerações:

 

"Em 1909, a Banda de Handy foi contratada para a campanha eleitoral pelos partidários dum candidato a prefeito de Memphis chamado E.H.Crump. Handy pôs-se a escrever uma canção de propaganda que devia não só ajudar a eleição do Sr.Crump, como também prover a sua banda de um número de sucesso. O que daí resultou foi uma peça originariamente denominada “Mister Crump”, porém publicada três anos depois sob o nome de “Memphis Blues”" (CHASE, 1957, p. 419).

 

 W. C. Handy

 

Apesar de se autodenominar Pai do Blues, W.C.Handy não criou o Blues. O que não se tem dúvida é de seu pioneirismo e importância na história desse gênero musical. No livro História da música ocidental, Jean e Brigitte Massin ressaltam: “Handy não foi o ‘inventor’ do Blues (não existe, é claro, um inventor do blues), tampouco um bluesman” (MASSIN, 1997, p. 1082).

 

Alguns anos depois, Handy compôs outro clássico do Blues, chamado “St.Louis Blues”. Como já mencionado, a região do Delta, seja a do Mississipi ou a do Rio Yazoo, é tida como o local da gênese do Blues. Esta era uma região de solos férteis e de uma pobreza extrema. O Blues que dali se originou é chamado de Blues rural ou Delta Blues. Os bluesman que criaram este novo estilo de manifestação musical viviam na miséria e cantavam para conseguir dinheiro para bebida, para pagar o aluguel, etc. Entre eles destacam-se nomes como: Son House, Charlie Patton, Blind Willie Johnson, Skip James e Robert Johnson. Através da vida de bluesmen como estes, o Blues se fartará de mitos que enriquecerão o seu folclore. Robert Johnson, por exemplo, ficou conhecido por, supostamente, ter vendido sua alma ao diabo numa encruzilhada das rodovias 61 e 49, quando estava apenas com seu violão e uma garrafa de uísque. A vida de Robert Johnson foi cercada de mistérios. Johnson viveu apenas 27 anos, e, apesar de sua importância para a história do Blues, tudo o que se tem sobre ele se resume em duas fotos e 29 músicas gravadas.[3]

 

 

 

Por volta de 1920, o Blues vai passar por uma revolução que irá levá-lo a lugares nunca sonhados. Sobretudo após o período da Primeira Guerra Mundial, muitos negros começaram a migrar para Chicago. A principal causa desta migração foi a praga do algodão que ocorreu no sul do país culminando numa escassez de emprego para a população negra. A crise econômica que o país enfrentou neste período, o desenvolvimento dos meios de transporte, a grande enchente do Rio Mississipi em 1927 e a Grande Depressão em 1929 também foram aspectos fundamentais para esta migração. Karnal (2007) destaca que a população de Chicago chegou a triplicar entre os anos de 1900 e 1940 (KARNAL, 2007, p. 199). Muggiati (1995) também relata que “Com a Primeira Guerra Mundial, surgiu a necessidade de mão-de-obra suplementar e os negros do Sul foram atraídos para Chicago, onde a discriminação racial era menor “ (MUGGIATI, 1995, p. 18).

 

Nos estados do Sul vigorava deste o final do século XIX o sistema de leis conhecido como Jim Crow.[4] Estas leis visavam uma separação entre brancos e negros, sendo assim, deveria haver escolas para brancos, escolas para negros, lugares separados para brancos e negros em locais públicos como nos meios de transporte, banheiros, etc. Essas leis vigoraram até aproximadamente 1965. Em The Blues: Godfathers and sons, Martin Scorsese nos deixa importantes citações sobre a migração dos negros, principalmente dos artistas, para Chicago, afirmando que “Os artistas negros vieram do Mississipi, pelo Arkansas, de trem até Memphis e, depois, Chicago” (SCORSESE, 2006, 20´30´´). E ainda, que “Os negros que vinham para Chicago oriundos do Mississipi pensavam, agora nos afastamos da Jim Crow e vamos tentar a vida aqui’” (SCORSESE, 2006,25´46´´). Uma canção da época da migração para o Norte (Chicago), associada às leis Jim Crow, era cantada por Cow Cow Davenport e dizia: I´m tired of this Jim Crow, gonna leave this Jim Crow town.  Doggone my black soul, i´m sweet Chicago bound.[5]

 

Em Chicago, o Blues tomou posse de uma ferramenta que o levou a outras partes do mundo: a tecnologia. Com ela, os bluesman puderam amplificar seus instrumentos e suas idéias. A guitarra acústica cedeu lugar à elétrica, o mesmo acontecendo com o contra-baixo. As vozes também puderam ser amplificadas, aumentando assim o seu campo de ação.  Agora, os bluesman poderiam ser gravados. Abria-se, assim, o mercado do disco, estimulado pelo sistema de gravação, que passou do modo mecânico para o elétrico. Os Blues passaram assim a ser mais divulgados, sobretudo com as séries de discos chamadas race records (discos gravados por negros e destinados aos negros).

 

Sobre este aspecto, Muggiati (1995) diz, 

 

“o Blues tirava o pé da lama do Mississipi e iniciava a sua caminhada para a fama nas grandes cidades da América e do mundo” (MUGGIATI, 1995, p.18).

 

Entre as gravadoras, uma das mais importantes era a Chess Records, que, por volta de 1950, tinha entre os seus artistas nomes como: John Lee Hooker, Sonny Boy Williamson II, Chuck Berry, Buddy Guy, Howlin´ Wolf, entre outros. Porém, o nome mais importante entre os artistas da Chess, e o artista negro mais importante entre aqueles que vieram do Mississipi, foi Muddy Waters. Muddy, que foi o primeiro a amplificar todos os instrumentos de sua banda, veio a ser influência para muitos artistas internacionais, como Eric Clapton e os Rolling Stones – banda cujo nome foi baseado em uma das canções de Muddy, Rollin´ Stone. Um trecho dessa canção diz: “Well, my mother told my father, just before humm i was born “I got a boy child´s comin, he´s gonna be, he´s gonna be a rollin´stone…[6]

 

 

Com Muddy Waters o Blues alçou vôos internacionais. Os ingleses foram os principais a aderir a este novo gênero musical. Nomes como John Mayall, Mick Jagger, Keith Richards, Jimi Page, Jeff Beck e Eric Clapton são alguns dos que surgiram a partir do interesse pelo novo gênero. A busca dos ingleses pelas raízes do Blues ficou conhecida como 'A Invasão Britânica', e o que daí se originou foi uma enorme quantidade de artistas e bandas que tinham no Blues as suas raízes- nomes como John Mayall and the Bluesbreakers, Rolling Stones, The Who, Led Zeppelin, Yardbirds  e Cream (estes dois últimos contando com a participação de Eric Clapton, antes de iniciar sua carreira-solo).

 

Os artistas negros cantavam bastante sobre a viagem e a nova vida em Chicago. Uma das famosas canções vem de Robert Johnson: Sweet Home Chicago. Que diz:

 

 Oh baby, don´t you want to go

 Oh baby, don’t you want to go

 Back to the land of California

 To my sweet home Chicago[7]

 

É nesse contexto que encontramos as principais fontes para se entender e compreender a história do Blues: os discos e a vida dos bluesman. Através dos discos é que percebemos o sentimento de agonia, sofrimento e dor contido na vida deles. É através da própria canção que compreendemos o sentimento de dor, como o de W.C.Handy em St.Louis Blues:

 

I hate to see that evening sun go down, i hate to see that evening sun go down, ´Cause my lovin´baby done left this town.[8]

 

É com a própria canção que percebemos o que movia Son House em Death Letter Blues quando este dizia:

 

I got a letter this morning, how do you reckon it read? Oh, hurry, hurry, Gal, you Love is dead.[9]

 

A canção no Blues tem grande importância na transmissão do sentimento do bluesman. É através dela que percebemos o ruralismo do Blues do Delta, a eletricidade do Blues de Chicago, etc. É a canção que nos mostra as diferenças entre o Blues de Son House e o de John Lee Hooker, entre o de Eric Clapton e o de Skip James. É ouvindo o disco que, hoje, podemos capturar um pouco da essência do Blues. Como quando ouvimos o lamento de Blind Willie Johnson em Dark was the night ou com o próprio Willie Johnson em Lord, i Just can´t keep from crying. É ouvindo B.B.King cantar Take my hand, precious Lord que podemos entender a história do Blues, porque, através de sua música, os negros contam a sua história:

 

 Precious Lord, take my hand

 Lead me on, let me stand 

 I am tired, I am weak, I am worn

 Through the storm, through the night

 Lead me on to the light[10]

 

O Blues conta a história do negro afro-americano. Uma história de sofrimento, de agonia, de lamentos e humilhações, mas, também, de alegria, regozijo e esperança de dias melhores.

 

Como diz Chuck D, do Public Enemy, em Scorsese (2006),

 

“Sempre digo que se você estudar a história gravada do Blues, Soul, Funk e Jazz nos últimos cem anos, você terá uma linha do tempo de como os negros viveram” (apud SCORSESE, 2006, 4´36´´).

 

Em sua autobiografia, Eric Clapton, importante artista do Blues britânico, diz:

 

"O Blues é um estilo de música nascido da união entre as culturas folk africana e européia, concebido na escravidão e criado no Delta do Mississipi. Tem sua própria escala, suas próprias leis e tradições, e sua própria linguagem. Do meu ponto de vista, é uma celebração do triunfo sobre a adversidade, cheio de humor, duplo sentido e ironia, e raramente - se é que alguma vez- é deprimente de se ouvir" (CLAPTON, 2007, p. 392).

 

 

Citações:

 

[1] Hoe Emma Hoe,volte a cavar um buraco no chão, Hoe Emma Hoe,  Emma, você é daqui, Emma me ajude a puxar estas ervas daninhas; Emma trabalhe mais que dois homens adultos. (Tradução do autor)

 

[2] Senhor, os problemas são tão difíceis. Sim, de fato, meu problema é muito difícil.

 Senhor, meus problemas são tão difíceis e ninguém sabe deles só Deus.

Sim, de fato, são tão difíceis meus problemas. Oh senhor, são tão difíceis.

 Deixe-me dizer o que a irmã fará. (Tradução do autor)

 

[3] O filme Crossroad, “A encruzilhada”, no Brasil (1986), com direção de Walter Hill e tendo no elenco o ator Ralph Macchio (Karatê Kid) e o músico Steve Vai, conta a história de um estudante de música clássica, Eugene Martone (Ralph Macchio), que é aficcionado pelo Blues, e, juntamente com Willie Brown, interpretado por Joe Sêneca, busca “A encruzilhada”, local onde Robert Johnson e Willie Brown teriam vendido suas almas ao Diabo para se tornarem famosos cantores de Blues.

 

[4] Jim Crow foram leis estaduais e locais decretadas nos estados do sul dos Estados Unidos entre 1876 e 1965. Estas leis exigiam que as escolas públicas e grande parte dos locais públicos, como trens, ônibus e banheiros, tivessem locais separados para brancos e negros. As leis Jim Crow foram revogadas em 1964 pelo Civil Rights act.

 

[5] Estou cansado deste racismo, vou deixar esta cidade racista. Aos diabos minha alma negra, estou a caminho da doce Chicago (Tradução do autor).

 

[6] Minha mãe disse pro meu pai, antes de eu nascer “um menino está vindo, ele será, ele será uma pedra rolante (Tradução do autor).

 

[7] Em uma provável tradução, este trecho de Sweet Home Chicago diz assim: Oh garota, você não quer ir/ Oh garota, você não quer ir/ De volta à terra da Califórnia/ Ao meu doce lar Chicago? (Tradução do autor).

 

[8] Odeio ver o sol indo embora a noite; eu odeio ver o sol indo embora a noite, porque meu amor se foi, deixou essa cidade (Tradução do autor).

 

[9] Recebi uma carta esta manhã, sabe o que ela dizia? Se apresse, se apresse, a garota que você ama está morta (Tradução do autor).

 

[10] Precioso Senhor, pegue minha mão, guie-me, deixe-me repousar; Estou cansado, estou fraco, estou desgastado;Através da tempestade,através da noite, guie-me para a luz (Tradução do autor).

Compartilhar
Compartilhar
Curtir
Please reload